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terça-feira, julho 12, 2005

 

Porquê em-princípio-ateu

Já me disseram várias vezes que a fé em Deus é uma fé que não precisa de provas. Para começar, acho que isto não é uma fé que se tenha. Pelo menos não é uma fé que leve a uma certeza. Fé sozinha constroi hipóteses, e não certezas. Comprovação sim, leva à certeza, com ou sem fé.
Ter fé em Deus sem qualquer prova é, para mim, manter Deus no campo da hipótese. Mas não sei porquê, em relação a Deus, muitos crentes acham que a fé, exactamente por não ter qualquer comprovação, é ainda mais forte. Ou seja: quando as crianças acreditam no Pai Natal, é uma fé como as outras - uma fé que não leva a mais que uma hipótese. Mas a fé em Deus é vista como uma fé numa certeza que é mais certeza ainda por ser baseada numa fé sem fundamento (NOTA: Revisitar a frase "sem fundamento").
Claro que certas pessoas atribuem certos factos à vontade divina e isso para elas chega-lhes como prova que esse divino existe. Mas a atribuição de certos eventos à vontade divina é tudo menos obrigatória - as crianças, ao verem as prendas pela manhã na árvore de natal, rendem-se à existência do Pai Natal mas nem por isso ele existe. Esta relação entre acontecimento-Deus é de uma arbitrariedade inconsciente (acho eu), muito conveniente. De facto, a conveniência é tanta que imensas vezes ouvimos "Foi Deus" quando acontece uma coisa boa e "Misteriosos são os desígnios do senhor. Certas coisas não é suposto compreendermos" quando um maremoto mata 200 mil pessoas. Mas isto não representa maior parte dos crentes anyway, já que muitos têm aquela consciência do facto (conveniente?) de Deus não influenciar de maneira nenhuma o decorrer das vidas humanas.
Face a tudo isto, face a uma crença que não prova nada, ouço muitas vezes que "simplesmente sei que ele existe", o que, se pensarmos que crer e saber nem sempre é assim tão diferente, não me leva a lado nenhum. Passamos a vida a confiar nas pessoas e apanhar desilusões, a discutir porque sabemos que temos razão e depois não temos, a dar informações erradas e, oops, afinal as chaves não estavam em cima da mesa e eu discuti toda a manhã com a minha irmã por causa disso. Mas quando se sabe que Deus existe, mesmo sem nenhuma prova, Ah!, aí é diferente. Não conheces a minha namorada para poderes falar dela, não sabes qual a intenção de um filme para o poderes criticar, mas quando me dizes que um ser todo-poderoso nos criou e todo o pack que acompanha Deus, isso sim, sabes. Mesmo que não saibas.
"Mas sei. Sinto cá dentro". Mesma questão: quantas vemos sentimos agressividade na voz de alguém e a pessoa nos garante que está tudo bem? Os mal entendidos derivados de entoações mal percebidas são imensos. Porque sentimos coisas e confiamos nelas e às vezes não são fiáveis.
Afinal, porque é que milhões de pessoas, quase todas as pessoas, acreditam em Deus?
Há outra resposta que eu gosto. É aquela do "Não faria sentido se Deus não existisse". Pois claro que não faz sentido nascer e viver e, quando morremos, deixar simplesmente de existir. É ridículo, deprimente, absurdo. Claro que não faz sentido, mas ninguém disse que tinha que fazer! A existência de Deus daria um certo sentido a tudo (daria?), mas isso não quer dizer que ele existe porque nada nos garante que o tudo tenha obrigatoriamente que ter um sentido. É bastante circular que seja Deus a dar o sentido às coisas, o mesmo sentido que conduz à existência desse mesmo Deus. Acho que isto nem é possível.
Isto faz-me pensar que Deus é um mecanismo automático e inconsciente de defesa inato ao ser humano. Viver com a hipótese de a existência ser um absurdo pode ser, como já disse, deprimente. Deus é como uma esperança, e isto para mim é mais verdade de dia para dia. Talvez exista um Deus, ok, mas talvez seja tudo uma falta de coragem para enfrentar a mais dura condição intrínseca à existência: a sua absurdidade (ou absurdez? ou absurdice? ou absurdalhice? Ok isto já não é a sério).
Não que seja uma cobardia como a comum, que seja apontável e desapreciada. De facto, quem acredita em Deus, não tem qualquer consciência desta possível (repito: é um talvez) cobardia. Como disse, é um mecanismo de defesa automático, como espirrar porque um ser microscópico estranho nos entra pelo nariz, ou tossir quando algo nos fica entalado na garganta. Ninguém nos ensina, é humano e é um sistema que nos permite sobreviver e viver melhor. Como Deus.
Não há certezas neste post, claro. Mas há eu a habituar-me à ideia.

Comentários:
A verdade é que até hoje a existência de Deus, ou o contrario, ainda não foi provado e como tal teremos de viver na ignorãncia, sendo todas as teorias tão credíveis como não credíveis.
E até lá a "verdade" estará nas mãos daqueles que melhor conseguirem argumentar e por consequente naqueles que são facilmente influenciados.
 
A verdade é que Deus tornou-se algo bastante conviniente, uma boa forma de justificar muita coisa e mover milhares em torno de um culto - e obviamente alguem tira, tirava e continuará a tirar lucros com isso.

Vamos acreditar numa instituição que censurou e forjou partes do próprio livro que considera sagrado e pelo qual orienta a sua doutrina? Com o qual no passado justificou a morte de milhões, e ainda hoje em dia é causa de morte e segregação no mundo? (Veja-se a Irlanda do Norte).

Ou vamos pensar um bocadinho mais além e sair desta ignorância e limitação psicológica?
 
Boa exposição, gostei de ler. Focas alguns pontos que fazem todo o sentido, como por exemplo Deus servir como algo que tenta dar sentido à vida.
 
Tenho lido sempre sem comentar mas este post vai mesmo de encontro a algumas incertezas que pairam na minha cabeça.
Querendo acreditar, como eu quero, como se esquece e nos abstraimos do facto de que a morte é sempre uma coisa má do ponto de vista dos que ficam e que Deus "seria" o responsável?
O Deus bom para todos e maus só para alguns?...
E querer acreditar não é por si só uma forma de forçar uma fé que não temos?!
Beijinho
 
Ao longo da história da Humanidade, o Homem, não conseguindo resolver alguns problemas, tem recorrido à Metafísica. A resposta a estes problemas acaba, eventualmente, por ser descoberta, e com a ajuda do tempo, descobrimos também a ridicularidade da nossa imaginação. Deus ter-nos-á criado? Ou teremos sido nós a criar Deus?
 
Eu gostaria de dizer... apenas que... a Igreja Católica é somente a instituição religiosa no Mundo que mais ajuda as populações. Senão vejamos as congregações missinárias espalhadas pelo mundo!

Além disto, o tema... não era de facto o Catolicismo... mas sim Fé em Deus!

Jesus Cristo, é a prova mais real da Existência de Deus.

Mada
 
Hugo...

Antes demais... o inicio do meu comentário anterior era de facto especificamente dirigido ao teu (primeiro).

Então repara: onde é que matar a população justifica a Fé? e se eu, um ateu, matar a população?

E claro que todos temos esse poder. Esse poder chama-se AMAR. A diferença é que Cristo foi homem mas era Deus e portanto era perfeito, coisa que os homens não são.

E de facto, o sentido da minha vida é o AMOR. Se chamas a isso estupidez... lamento muito!
 
Eu lamento muito a tua falta de informação Hugo! Sinceramente, sem nenhum ataque pessoal e com todo o respeito.

A igreja católica, de facto, não é ao longo da historia a responsável pelo maior número de mortos.
Na realidade, como referiste e muito bem, a Igreja Católica praticou em nome da Fé, muitos crimes, pelos quais se arrepende, nas palavras de João Paulo II.

Eu sou contra o aborto. E digo-te claramente que não é por ser Católica. É por ser cidadã e pessoa.

Eu referi que, a Igreja Católica é a Instituição RELIGIOSA que mais ajuda no Mundo. E não estou a falar vãmente.

Finalmente dizer-te... mais uma vez que o sentido da MINHA vida é o Amor, ser mais humanista, mais generosa, mais preocupada com o homem e não com a ciência.

O resto conversamos por email: madalenacfv@hotmail.com

Desculpa Zoe (que seja) esta troca de palavras no teu espaço!
 
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
 
Um dos momentos mais estranhos que se pode observar, é quando se vê alguém a renascer. Os olhos começam a brilhar e quase que se vê um sorriso. Olho melhor e os lábios estão precisamente no mesmo sitio. Eu não vi sorriso nenhum. Eu senti-o.
Chamem-lhe Deus, Sorte, o Papão, a entidade divina ou o Buda, chamem-lhe humanismo, ou poesia. Podia dizer que eu acredito no Homem, mas muito sinceramente não sei em que acredito. Mas acredito. Há quem tenha chamado a isto de "fé".
Uma vez ouvi esta frase: "Deus é o amigo imaginário dos adultos."
Deus existe? Deus toma descafeínado? Será que Jesus usava sandálias ou chinelos?
Se formos à biblía, há lá uma mensagem muito explicíta. Mas somos humanos e essa mensagem foi distorcida e a isto costuma chamar-se de "Igreja Católica".
Não sou religioso mas fui educado para o ser, mas se alguma vez me interessei por algo que se ligasse remotamente ao assunto, foi a mensagem da biblía. Não são os milagres que alguém fantasiou nem os dogmas que sempre nos quiseram impor. Vivemos num mundo onde parece estranho dizê-lo, mas Jesus foi acima de tudo uma pessoa e claro que não era perfeito. A mensagem que sobreviveu até hoje, depois das muitas adulterações do maior veículo dessa mesma mensagem - a biblia - foi tão simples quanto isto: amar. Jesus, para ter sido - na menor das hipoteses - um grande contribuidor para o declínio do império romano, bem, ele deve ter sido alguém importante. E deve ter dito uma mensagem imporante. Uma mensagem que algumas pessoas na história da humanidade tiveram a coragem de repetir.
Eu acredito no espírito humano, acredito na fé e sinceramente não tenho escolha nenhuma nem me arrependo nada. Acredito num acreditar profundo que teima em ser menosprezado pela sociedade actual. Uma crença sem razões, sem provas, sem racionalidades intensivas nem esquemas matemáticos. É uma espiritualidade que nos une e nos torna melhores.
Serão só mecanismos psicofísicos? Será estúpido e infantil haverem pessoas que vão todos os domingos rezar por um Deus que não se sabe se está numa nuvem a contar anedotas porcas a S.Pedro? Infantil será precisar de provas para acreditar numa coisa em que é inutil acreditar (e ridicula de se discutir) - neste caso, se Deus é um ser físico ou não. O conceito de Deus para mim, como já descrevi, é indefinido - depende de pessoa para pessoa.
Agora o espírito e alma não são objectos. Eu não sei definir nada. Não sei o significado da vida, podíamos especular a noite toda.
Mas há um sorriso que não se vê e uma esperança que não se estuda. Este é o momento mais belo da humanidade.
 
Fico impressionado como se confunde a ciência com a religião. A criação de Deus é algo intrínseco à condição humana. Desde os primórdios da Humanidade que é uma prática comum a explicação do que à primeira vista serão milágres, de uma forma simplista e redutora. As religiões começaram por ser politeístas, tendo-se criado vários Deuses para explicar um sem número de coisas cujos processos se desconhecia (desde a chuva, o sol, etc, etc). Á medida que os conhecimentos do mundo que nos rodeia foram aumentando, a ridícularidade da nossa imaginação fez com que se rebuscasse a ideia que tinhamos sobre Deus. Este é cada vez menos invocado para se explicar algo que de divíno nada terá, e os milágres só existem para o que a ciência ainda não conseguiu determinar. Felizmente, prevejo o fim da religião para breve...
 
estou a ver que lançaste alguma polémica com aquilo que escreveste!
Mas a fé também não é polémica?
Não é possível discutir sentimentos, o que é para mim o amor, a amizade, o carinho pode ser diferente daquilo que eles representam para ti! o mesmo acontece com a fé e com Deus! Não existe uma definição que possa "agradar" atodos, não existe uma única opinião! na vida existem pontos de vista diferentes em relação a tanta coisa... Acho é que por vezes não muito respeito em relação a diferentes opiniões! Crentes e não crentes envolvem-se em discussões que naõ levam a lado nenhum! Cada um é livre de acreditar naquilo que quer e não pode ser condenado por isso!
 
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