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quarta-feira, janeiro 18, 2006

 

Malevil

De Robert Merle, é claramente um dos melhores livros que li nos últimos anos. Isto considerando que os anos passados realmente existiram e não são apenas uma memória com 6 segundos de idade que existe isoladamente na minha cabeça.
Gostei de várias coisas em "Malevil". Primeiro, gostei de como começa. Não começa com o nome de uma personagem - "Emannuel dormia quando..." - nem começa com uma descrição de um sítio num certo momento - "A lua estava no ponto mais alto do semi círculo que traça no céu, e um nevoeiro...". Ou seja, não começa como se estivesse a meio. Detesto quando os livros começam da mesma maneira que são durante todo o meio. Quando são os meus textos e contos, é uma coisa, mas com livros a sério, incomoda-me. Acho que é falta de imaginação e demasiada recorrência a uma fórmula de como escrever. Para isso vou ler blogues de pitas/jovens (ou photoblogues de pessoas que eu conheço de vista da minha escola).
Lidas algumas dezenas de páginas, reparo que ainda não me cansei. Ainda não distraí a minha mente que, embora os olhos continuem a seguir as letras, por esta hora já costuma deslizar por uma cadeia aleatória qualquer de pensamentos que desencatou sabe-se lá em que canto da minha cabeça. Depois tenho que voltar uma ou duas páginas atrás porque não registei nada dessa leitura ausente.
Não é que "Malevil" seja aquela coisa que "Prende bué o leitor" (embora me tenha prendido). Não penso que seja pelo suspense da história (embora tenha momentos de suspense e tensão, até para o leitor!). Mas é o equilíbrio da escrita que não me cansa. É como a diferença entre correr e andar rápido.
Bom, mas "Malevil" é uma história de um pequeno grupo de pessoas que sobrevive (por pouco), numa cave de um castelo, a um ataque nuclear. Bla bla bla, adeus raça humana, etc etc. Mas nesta história, o pós-apocalíptico está muito bem explorado. Há detalhes que invejamos não nos terem ocorrido. Se há algo que gosto em histórias que implicam acontecimentos que mudam a maneira como vivemos (ex: "Ensaio sobre a Cegueira") é quando os autores têm a capacidade de explorar até ao extremo as condições a que as personagens ficam entregues. A vida pós-apocalipse. Gosto quando é retratada com precisão, eficácia, e nada fica esquecido assim como nada é incoerente. Como se o autor tivesse de facto passado por lá.
Já não me lembro do último livro que li que me tenha realmente ligado às personagens. Ao ponto de gostar delas, de querer ler o livro para observar a vida delas, quase ter saudades. Olhando para os livros que aqui tenho arrumados, "O Fio da Navalha" é o primeiro que me salta a vista, como um livro em que o mesmo se passou. "Os Maias" é o segundo que reparo.
De facto, o mergulho na realidade da história e das personagens é tanto que nunca cheguei a personalizar o autor. Emmanuel, Miette, Collin, tenho uma face na minha mente para cada um deles. Muito vaga, claro... e só eu a percebo de tão vaga e desaparecida que é. Mas o autor, nem na mente o cheguei a individualizar. E acho que é bom quando este tipo de coisa acontece. É bom ler um livro e não encontrar demasiada evidência do autor, seja na escrita, seja na temática, seja nos diálogos, seja no que for. Se calhar também ajudou o facto de ter lido uma edição antiga (o suficiente para se ter divido em várias partes nas minhas mãos) que não inclui uma foto do autor ou a sua breve biografia.
Oh boy, like you care.
Bom livro, seja como for.

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